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Viagem em um balão

Em Primeiridade, Secundidade, Semiótica, dezembro 21, 2009 às 10:10 pm

E em nossa transição à secundidade, traduzirei de modo livre trecho de carta de Peirce enviada à Lady Welby (grifo nosso):

“O tipo de uma idéia de secundidade é a experiência de esforço, prescindido da idéia de um propósito. Pode-se dizer que não há tal experiência, que há sempre um objetivo em vista, desde que o esforço é conscientizado.[...]A existência da palavra esforço é prova suficiente de que as pessoas pensam que têm essa idéia e que é suficiente. A experiência de esforço não pode existir sem a experiência de resistência; [...] é o esforço por virtude de ser oposição, no qual nenhum terceiro elemento entra. Note-se que falo da experiência, não do sentimento, do esforço . Imagine-se sentado sozinho à noite no cesto de um balão, muito acima da terra, calmamente apreciando a calma e tranquilidade absolutas. De repente, o som de um apito soa em cima de você, e continua por um bom tempo. A impressão de silêncio foi uma idéia de Primeiridade, uma qualidade de sentimento. O assobio cortante não permitem você pensar ou fazer qualquer coisa, mas sofrer. Então, isso também é absolutamente simples: outra Primeiridade. Mas a quebra do silêncio, o barulho foi uma experiência . A pessoa em sua inércia se identifica com o estado precedente de sentimento, e o sentimento novo que vem é o não-ego. Essa pessoa tem, então, uma consciência de face dupla: um ego e um não-ego. Essa consciência da ação de um novo sentimento em destruir o velho sentimento é o que eu chamo de uma experiência. Experiência geralmente é o que o curso da vida obrigou-me a pensar. Secundidade ou é verdadeira ou degenerada. Existem muitos graus de autenticidade. A secundidade geral genuína consiste em uma coisa agindo sobre o outro – a ação bruta. Digo bruta, porque na medida em que a idéia de qualquer direito ou razão vem, vem dentro da Terceiridade. Quando uma pedra cai no chão, a lei da gravidade não atua para fazê-la cair. A lei da gravitação é o juiz em cima da bancada, que pode pronunciar a lei até o juízo final, mas a menos que o braço forte da lei, o xerife brutal, dê cumprimento à lei, isso equivale a nada. [...] A pedra a cair é puramente o caso da pedra e da terra, ao mesmo tempo. Este é um caso de reação. Então, é a existência que é o modo de ser do que reage com outras coisas “. (A Letter to Lady Welby, CP 8.330, 1904).

Mapa do site – também conhecido como “Para quem pegou o bonde andando”

Em Mapa do site, Primeiridade, Secundidade, Semiótica, Terceiridade, dezembro 21, 2009 às 9:20 pm

Bem, como sou péssimo webmaster e tento ignorar meus parcos conhecimentos em html, não temos um mapa do site para que você, leitor, possa se encontrar nesta futura miríade de textos.

Este será um post permanentemente atualizado cujo objetivo é elencar o que vem a acontecer neste blog.

1) Este blog é acerca do estudo de semiótica desenvolvido por Charles Sanders Peirce (pronuncia-se como “purse”, em inglês). Quer saber quem ele foi ou qualquer curiosidade da vida dele? Clique aqui em Peirce na Wikipédia. E quer saber o que acho que é a semiótica, então, clique aqui em “O que é semiótica?“.

2) Os gregos tentaram categorizar o mundo, ou seja, reduzir o mundo a categorias mínimas, conseguiram encaixotar tudo em 10. Kant, o filósofo, concentrou tudo em 12. Peirce foi além e dividiu tudo em apenas três(!) categorias, que são elas a primeiridade, a secundidade e a terceiridade.

Para saber mais sobre o que falo da primeiridade consulte estes posts: primeiridade, a sensação das cores, o presente imediato, e a viagem em um balão.

Da secundidade consulte a viagem em um balão e a oposição binária.

Para a terceiridade, encerrando o triângulo, olhe ali mesmo!

Na semiótica, antes de analisarmos as coisas é bom saber como Peirce esquematizou o signo e o que ele engloba. Explicação mais detalhada em fechando o triângulo, e menos detalhada – para os mais, digamos, apressados – veja o resumo abaixo:

1º – o signo em si – representamen

2º – o objeto – objeto imediato que é o objeto para o qual o signo nos leva, e o objeto mediato ou dinâmico que seria o objeto real

3º – o interpretante – interpretante imediato, que são todas as possibilidades de interpretação que existem ou venham a existir em um signo; interpretante dinâmico, que é quando algo ou alguém interpreta um signo; interpretante final, que é quando todas as interpretações de um signo foram levadas ao extremo – é dito que nunca o alcançaremos.

Deu pra sacar o esqueminha do triângulo? Senão olhe abaixo e depois leia novamente o resumo logo acima:

1

2    2

3    3    3

Mas o que é semiótica?

Em Semiótica, dezembro 21, 2009 às 9:14 pm

Nos cursos de comunicação há muita gente que teme tal estudo, ainda não entendi o porquê. Não concordo que semiótica é apenas para a área de comunicação. Semiótica é a ciência dos signos. Há diversas semióticas por aí afora. Só para pegar os ramos mais difundidos temos a linha francesa, que começou com o ilustre Saussure e teve andamento com Hjelmslev e Greimas, e seguindo carona com ela temos a linha russa de estudos do texto, cujo expoente gostaria de citar Yuri Lotman (e seu conceito de semiosfera). Nos EUA, um pouco antes de Sausurre nascer Charles Sanders Peirce (pronuncia-se como “purse” em inglês) dedicou sua vida à lógica e ao estudo dos signos. O que são estes tais de signos? Bem, os signos são elementos da realidade que se referem a uma outra coisa qualquer. Exemplo? Você sabe a “ondinha” da Nike? Sim, o logotipo da marca, pois bem, quando vemos tal logo impresso em uma camiseta, sabemos que se refere à Nike. Não temos a nossa frente tênis esportivos com design moderno e tecnologia amortecedora de impacto, mas sabemos que se refere à Nike. Aquele logo é, então, um signo que representa a marca Nike e toda a idéia que temos em torno dela. Quer outro? A tal da maçãnzinha, quem é? Para os geeks e modernos de plantão, talvez tenham sacado que eu estava a falar da Apple, marca de computadores e handhelds. “Ah! Então um signo é tipo um logo?”, sim, é isso mesmo, mas não só isso. Quando você vê uma foto da cantora Madonna. Temos ali mais um signo, que é o signo dela mesma. Afinal a Madonna não está lá presente, mas pode estar em qualquer lugar do mundo. “Peraí! Mas e se eu estou no show da Madonna e ela está ali cantando na minha frente?”, calma! Continua sendo um signo, signo da cantora Madonna, afinal ali teríamos o que Peirce chama de ícone*, um signo mais próximo da coisa em si, afinal a Madonna que conhecemos não é a Madonna de verdade, pois a Madonna de verdade tem dor de cabeça, vai ao banheiro, fica com fome, enfim, é um ser humano e na hora que ela está na sua frente esquecemo-nos totalmente disso pelo simples fato de tal pessoa não ser mais um ser humano qualquer, e sim um ícone de um astro, que é a Madonna que conhecemos. “E os signos do zodíaco?”, também são signos, afinal, as constelações não tem forma alguma, nós é que – sedentos por razão e ordem – colocamos que aquelas estrelas tem um formato. As bandeiras são outros exemplos de signos mais complexos – como o zodíaco -, nos quais quando vemos a bandeira de um país e o reconhecemos, não estamos necessariamente vendo o país, como exemplo temos a bandeira da Inglaterra que nada tem a ver com a ilha inglesa e com sua geografia. Temos aí, na definição de Peirce, um símbolo*. Quer mais um exemplo? Peguemos o presidente Lula, o que ele representa para você? Brasil? Política? O que mais? Logo, nosso caro presidente também é signo. Assim como você e eu somos signos, quando as pessoas nos veem, logo relacionam algo à mente (chamamos o processo de interpretação de um signo de semiose). Os signos não são apenas logomarcas, ícones do computador ou signos astrológicos, mas estão presentes em tudo a nossa volta, desde as cores, os objetos, os códigos dentro do seu computador, as palavras, nosso código genético, uma espinha no rosto, roupas, cortes de cabelo, seres, plantas, etc. Não sei se dá para se dizer que o universo é unicamente composto por signos, porém é perfeitamente possível dizer que estamos imersos a signos, queiramos ou não. Como diz nossa querida Lúcia Santaella, com o advento da Internet e o que ela causa em nossas mentes mesmo quando não estamos conectados, “os signos não param de crescer”. Eis que surge a semiótica, a ciência que estuda os signos, suas (inter)relações e processos de semiose.

*Noto que normalmente usa-se indiscriminadamente a nomenclatura signo, ícone e símbolo. Saibam que na semiótica de Peirce, ícone, índice e símbolos são tipos de signos diferentes. Um símbolo não é nem ícone e nem índice, a priori. E em Peirce, os signos não se resumem unicamente aos tipos indicados supra.

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